sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

No meu tempo...



No meu tempo…

Sinto sempre alguma nostalgia, quando ouço esta frase, faz-me viajar para um passado não muito longínquo, que me traz tão boas memórias. No meu tempo, brincávamos na rua até tarde e bastava um grito das nossas mães para voltarmos para casa sem discussão, sem fincar o pé, sem desrespeito.
No meu tempo, comíamos batatas fritas da Matutano, Bollycaos e Galaks e isso era sinónimo de felicidade, nada mais, nada menos.
No meu tempo havia sempre um “Bolinha”, um “Texugo”, um “Rato” ou um “Piolho” na turma e ninguém se ofendia com isso. Aceitava-se, com um misto de orgulho e vergonha, a alcunha que tinha sido atribuída e seguíamos em frente.
No meu tempo, íamos a pé para a escola, encontrávamos o resto da turma pelo caminho e contávamos o que tinha acontecido no dia anterior.

O novo ano lectivo iniciou-se há uns dias e à semelhança dos anos anteriores era ver os estacionamentos das escolas cheios à pinha com os pais a lá deixar os filhos. A banalidade de ter transporte próprio, que não era tão comum anteriormente, tornou este processo corriqueiro, já que ninguém imagina o seu filho ou filha a ir a pé seja para onde for. Contudo, terá sido só a banalidade da coisa a contribuir para esta mudança?
Julgo que o contributo maioritário, infelizmente, terá sido o medo.
Ousarei dizer que os meus pais não tiveram medo por mim, quando me deixaram ir a pé para a escola, sozinha, quer fizesse chuva ou sol? Não, claro que não! Como qualquer pai certamente temiam por mim, mas a verdade é que a sociedade da minha altura, ainda que já a caminhar para a pobreza de gentes, era melhor. Ou, pelo menos, era menos exposta, que é como quem diz: “olhos que não vêm, coração que não sente.”

Havia raptos, roubos, violações e todas aquelas cenas horripilantes que fazem o coração de uma mãe ter pequenas arritmias só por pronunciá-las, mas o mundo dessa altura não tinha um Facebook Live que nos permite visualizar uma qualquer desgraça a ocorrer, até, do outro lado do mundo, em directo ou um canal de informação 24 sobre 24 horas em que para ouvirmos uma notícia feliz, ouvimos antes 30 infelizes, transformando o nosso cérebro neste lugar sombrio, escuro e perigoso, onde, maioritariamente, são registadas emoções negativas e inconscientemente ligadas aos nossos filhos.
O mundo evoluiu, é um facto, e essa evolução, ainda que com muitos pontos positivos, permitiu-nos também este acesso desmesurado à informação, que nos fez ter medo. Medo por nós, pelos nossos filhos, medo do mundo. E ainda que tenhamos a coragem de colocar crianças neste planeta, a forma como as queremos educar roça sempre bem ao de leve a educação efectivamente dada.

Nenhum pai quer, objetiva e propositadamente, que o seu filho não se saiba defender, que não saiba qual o número do autocarro para casa ou como utilizar o PBX da escola, que se intimide, porque foi chamado de menino do papá, ou que chore, porque se perdeu e não sabe pedir indicações,  mas quais serão as consequências da super-protecção dada a estas crianças em que todo e qualquer progenitor não faz mais, porque não pode, senão estas?
Todos queremos o melhor para os nossos filhos, dúvidas houvessem relativamente a esse assunto, e, por isso mesmo acabamos por criar uma geração de alienados da realidade e do mundo, porque, no fundo, optamos por educá-los super-protegidos, mas com a certeza, porém, que enquanto eles não trocam os passos pelas asas, controlamos o seu caminho.

 
 
Artigo originalmente publicado no Repórter Sombra
 
 


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